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Oeiras, Portugal
jornalista. escritora.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Eternidade

Ri-me sufocada, quando um beijo ansioso interrompeu de novo os meus esforços.

- Que se dane - rugiu Edward, beijando-me debaixo do queixo insaciável.
- Dispomos de todo o tempo do mundo para praticar - recordei-lhe
- Para sempre, sempre e sempre - murmurou Edward.
- Isso soa-me a algo mais do que perfeito.

Foi então que demos asas à nossa felicidade, naquele momento pequeno, mas absoluto, da nossa eternidade.


por Stephanie Meyer em "Amanhecer"

segunda-feira, outubro 05, 2009

Alto dos Vendavais

Não sei como explicá-lo, mas certamente que tu e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, um outro eu para além de nós próprios. Para que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a isto?

Os meus grandes desgostos neste mundo foram os desgostos do Heathcliff, e
eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim numa vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer.

O meu amor pelo Linton é como a folhagem dos bosques: transformar-se-á com o tempo, sei-o
bem, como as árvores se transformam com o Inverno. Mas o meu amor por Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite para os olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou o Heathcliff. Ele está sempre, sempre, no meu pensamento. Não por prazer, tal como eu não sou um prazer para mim própria, mas como parte de mim mesma, como eu própria.

Portanto, não voltesa falar na nossa separação, pois é algo de impraticável...


por Emily Bronté

terça-feira, setembro 29, 2009

A desilusão de Júlio

Aquele tom grave e sisudo preocupou, ainda mais, o Júlio. Nunca a tinha visto assim, por isso, sabia que algo de muito grave se estava a passar. Estava tão séria que nem sequer tinha correspondido ao seu beijo e ao seu abraço. Naqueles breves segundos passaram-lhe imensas ideias pela cabeça: ela estaria gravemente doente ou então teria que voltar para Lisboa ou então tinha desistido do curso. Nenhuma das suas suposições estava correcta.
Quando ela ganhou coragem e lhe contou o que tinha acontecido durante o fim-de-semana, ele ficou parado, quieto e pálido. Não sabia o que dizer, nem o que fazer. Olhava para a Margarida e não a reconhecia. A mulher da sua vida não o magoaria daquela maneira. A mulher com quem queria passar o resto da sua vida jamais o trairia. Não queria acreditar que aquilo era verdade e obrigou-a a repetir. Quando finalmente caiu em si e percebeu que aquilo não era um pesadelo, mas sim a dura realidade, quis saber quem era o outro que a tinha roubado de si e tinha roubado o seu lugar. Ela, como seria de esperar, não lhe revelou que o culpado daquela situação era o Ivo, o seu melhor amigo, a pessoa em quem ele mais confiava. Estava tão destroçado que não teve forças sequer para discutir. A desilusão estava espelhada nos seus olhos, onde as lágrimas começavam a acumular-se.

- Desiludiste-me tanto Margarida, tanto.
por Patrícia de Carvalho

terça-feira, abril 28, 2009

Capítulo XVII

Ega enervado, exausto, voltou para o quarto — onde Carlos recomeçara naquele agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente os frascos de cristal sobre o mármore da console.
Calado, junto da mesa, Ega ficou percorrendo outros papéis da Monforte: cartas, um livrinho de marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e de senadores do Império.

Subitamente Carlos parou diante dele, apertando desesperadamente as mãos:
— Estarem duas criaturas em pleno Céu, passar um quidam, um idiota, um Guimarães, dizer duas palavras, entregar uns papéis e quebrar para sempre duas existências!... Olha que isto é
horrível, Ega!

Ega arriscou uma consolação banal:
— Era pior se ela morresse...
— Pior porquê? — exclamou Carlos. — Se ela morresse, ou eu, acabava o motivo desta paixão, restava a dor e a saudade, era outra coisa... Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e
viva a paixão que nos unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ela é minha irmã, eu gosto menos dela do que gostava ontem, ou gosto de um modo diferente? Está claro que não! O meu amor não se vai de uma hora para a outra acomodar a novas circunstâncias, e transformar-se em amizade... Nunca! Nem eu quero!

Era uma brutal revolta — o seu amor defendendo-se, não querendo morrer, só porque as revelações de um Guimarães e uma caixa de charutos cheia de papéis velhos o declaravam impossível, e lhe ordenavam que morresse!

Houve outro melancólico silêncio. Ega acendeu uma cigarette, foi-se enterrar ao canto do sofá. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda aquela emoção, da noitada no Augusto, da estremunhada
manhã na alcova da Cármen. Todo o quarto ia entristecendo, à luz mais triste da tarde de Inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos.


por Eça de Queiroz em "Os Maias"

segunda-feira, abril 13, 2009

Lembro-me tão bem

Lembro-me como se fosse hoje, como se fosse agora.
Lembro-me daquele beijo terno e apaixonado que não demos, daquele abraço apertado de saudade que não demos. Lembro-me tão bem.

Lembro-me daquele sorriso feliz e verdadeiro que não trocámos, daquele olhar cúmplice e sincero que não trocámos. Lembro-me tão bem.

Lembro-me dos planos que não fizemos, dos passeios que não demos, das histórias que não escrevemos, dos ciúmes que não tivemos, dos sonhos que não realizámos. Lembro-me tão bem.

Lembro-me como se fosse hoje, como se tivesse sido há um minuto atrás...
Lembro-me tão bem do amor que não vivemos.

por Patrícia de Carvalho

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A lembrança de Mário

Olhou pela janela e respirou fundo.

Aquele céu cinzento fazia brotar em si a nostalgia, a saudade de outros tempos em que se achava infeliz, mas que só agora percebia que tinha sido realmente feliz, que todo o seu ser se tinha sentido completo.Olhava a rua com a esperança que um raio de luz furasse as nuvens espessas e escuras, o mesmo raio que iluminaria a sua vida e lhe traria de novo a infeliz felicidade de outros tempos.
Já tinha passado mais de um ano desde o último encontro, que, agora ao recordá-lo, sabia-o infeliz. Tinha-lhe dito palavras duras e crueis demais para alguém que se tinha entregue ao amor de forma tão pura e verdadeira. A verdade é que enquanto sentia necessidade de as dizer, sem dó, sem piedade, sentia também um arrependimento apoderar-se de si a cada palavra pronunciada,a cada gesto feito, a cada suspiro dado.Lembrava-se agora do seu rosto, triste e desconsolado. O seu olhar tinha perdido o brilho de outros momentos e, agora que os olhava fixamente,podia ver o vazio da sua alma. Via nas suas lágrimas a dor que lhe causava e, apesar do primeiro impulso ter sido limpá-las, deixou-se ficar no seu pedestal de ferro e não se aproximou mais.
Deu meia dúzia de passos até à porta. Parou. Respirou fundo. Ganhou coragem e olhou para trás. Pôde então vê-la destroçada junto à janela, sem pronunciar uma palavra, deixando que as lágrimas sentidas que lhe corriam pelo rosto falassem por si.
E foi-se embora.

por Patrícia de Carvalho

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Antiga Dor

O subtil, o reflexo, o vago, o indefinido,
Tudo o que o nosso olhar só vê por um momento,
Tudo o que fica na Distância diluído,
Como num coração a voz do sentimento.
Tudo o que vive no lugar onde termina
Um amor, uma luz, uma canção, um grito,
A última onda duma fonte cristalina,
A última nebulosa etérea do Infinito...
Esse país aonde tudo principia
A ser névoa, a ser sombra ou vaga claridade,
Onde a noite se muda em clara luz do dia,
Onde o amor começa a ser uma saudade;
O longínquo lugar aonde o que é real
Principia a ser sonho, esperança, ilusão;
O lugar onde nasce a aurora do Ideal
E aonde a luz começa a ser escuridão...
A última fronteira, o último horizonte,
Onde a Essência aparece e a Forma terminou...
O sítio onde se muda a natureza inteira
Nessa infinita Luz que a mim me deslumbrou!...
O indefinido, a sombra, a nuvem, o apagado,
O limite da luz, o termo dum amor
Tornou o meu olhar saudoso e magoado,
Na minha vida foi minha primeira dor...
Mas hoje, que o segredo oculto da Existência,
Num momento de luz, o soube desvendar,
Depois que pude ver das Cousas a essência
E a sua eterna luz chegou ao meu olhar,
Meu infinito amor é a Alma universal,
Essa nuvem primeira, essa sombra d’outrora...
O Bem que tenho hoje é o meu antigo Mal,
A minha antiga noite é hoje a minha aurora!...


por Teixeira de Pascoaes