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Oeiras, Portugal
jornalista. escritora.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A lembrança de Mário

Olhou pela janela e respirou fundo.

Aquele céu cinzento fazia brotar em si a nostalgia, a saudade de outros tempos em que se achava infeliz, mas que só agora percebia que tinha sido realmente feliz, que todo o seu ser se tinha sentido completo.Olhava a rua com a esperança que um raio de luz furasse as nuvens espessas e escuras, o mesmo raio que iluminaria a sua vida e lhe traria de novo a infeliz felicidade de outros tempos.
Já tinha passado mais de um ano desde o último encontro, que, agora ao recordá-lo, sabia-o infeliz. Tinha-lhe dito palavras duras e crueis demais para alguém que se tinha entregue ao amor de forma tão pura e verdadeira. A verdade é que enquanto sentia necessidade de as dizer, sem dó, sem piedade, sentia também um arrependimento apoderar-se de si a cada palavra pronunciada,a cada gesto feito, a cada suspiro dado.Lembrava-se agora do seu rosto, triste e desconsolado. O seu olhar tinha perdido o brilho de outros momentos e, agora que os olhava fixamente,podia ver o vazio da sua alma. Via nas suas lágrimas a dor que lhe causava e, apesar do primeiro impulso ter sido limpá-las, deixou-se ficar no seu pedestal de ferro e não se aproximou mais.
Deu meia dúzia de passos até à porta. Parou. Respirou fundo. Ganhou coragem e olhou para trás. Pôde então vê-la destroçada junto à janela, sem pronunciar uma palavra, deixando que as lágrimas sentidas que lhe corriam pelo rosto falassem por si.
E foi-se embora.

por Patrícia de Carvalho