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Oeiras, Portugal
jornalista. escritora.

terça-feira, abril 28, 2009

Capítulo XVII

Ega enervado, exausto, voltou para o quarto — onde Carlos recomeçara naquele agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente os frascos de cristal sobre o mármore da console.
Calado, junto da mesa, Ega ficou percorrendo outros papéis da Monforte: cartas, um livrinho de marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e de senadores do Império.

Subitamente Carlos parou diante dele, apertando desesperadamente as mãos:
— Estarem duas criaturas em pleno Céu, passar um quidam, um idiota, um Guimarães, dizer duas palavras, entregar uns papéis e quebrar para sempre duas existências!... Olha que isto é
horrível, Ega!

Ega arriscou uma consolação banal:
— Era pior se ela morresse...
— Pior porquê? — exclamou Carlos. — Se ela morresse, ou eu, acabava o motivo desta paixão, restava a dor e a saudade, era outra coisa... Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e
viva a paixão que nos unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ela é minha irmã, eu gosto menos dela do que gostava ontem, ou gosto de um modo diferente? Está claro que não! O meu amor não se vai de uma hora para a outra acomodar a novas circunstâncias, e transformar-se em amizade... Nunca! Nem eu quero!

Era uma brutal revolta — o seu amor defendendo-se, não querendo morrer, só porque as revelações de um Guimarães e uma caixa de charutos cheia de papéis velhos o declaravam impossível, e lhe ordenavam que morresse!

Houve outro melancólico silêncio. Ega acendeu uma cigarette, foi-se enterrar ao canto do sofá. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda aquela emoção, da noitada no Augusto, da estremunhada
manhã na alcova da Cármen. Todo o quarto ia entristecendo, à luz mais triste da tarde de Inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos.


por Eça de Queiroz em "Os Maias"

segunda-feira, abril 13, 2009

Lembro-me tão bem

Lembro-me como se fosse hoje, como se fosse agora.
Lembro-me daquele beijo terno e apaixonado que não demos, daquele abraço apertado de saudade que não demos. Lembro-me tão bem.

Lembro-me daquele sorriso feliz e verdadeiro que não trocámos, daquele olhar cúmplice e sincero que não trocámos. Lembro-me tão bem.

Lembro-me dos planos que não fizemos, dos passeios que não demos, das histórias que não escrevemos, dos ciúmes que não tivemos, dos sonhos que não realizámos. Lembro-me tão bem.

Lembro-me como se fosse hoje, como se tivesse sido há um minuto atrás...
Lembro-me tão bem do amor que não vivemos.

por Patrícia de Carvalho